Questões Comuns Sobre a Crise Hídrica

Questões Comuns Sobre a Crise Hídrica

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Algumas questões pertinentes sobre o último texto 10 Mitos e Curiosidades Sobre a Crise Hídrica chegaram até mim. Tento responder:

No atual cenário, a água pode mesmo acabar?

Devemos complementar a pergunta: Quando? Para quem? O sistema de represas de São Paulo está todo interligado, ou seja, é possível bombear água de um lugar para o outro, inclusive para o reservatório da Sabesp na esquina da Cerro Corá com a Heitor Penteado, um dos pontos mais alto do sítio urbano.

O sistema da Cantareira  é importante para garantir pressão para o sistema, já como as represas dessa região estão mais altas que a Paulista e assim a água desce por gravidade. Para tirar água da Guarapiranga (em um nível baixo), e mandar para Paulista se gasta muita energia elétrica para bombeamento e o custo da água fica caro para a Sabesp.

Voltamos para o problema principal: maximização de lucros a todo custo. Assim, o esgotamento completo da “Cantareira” não significa fim da água, mas que o custo da água será maior e que as outras represas entrarão em uma situação de estresse.

O Governo e a Sabesp podem empurrar com a barriga essa situação por anos (como já fazem), sem que haja realmente um cataclismo geral. Mas isso tratará de esgotar totalmente recursos e criar situações ainda mais sérias de abastecimento no futuro.

O corte provavelmente continuará afetando populações de baixo para cima. Ou seja, os pequenos consumidores domésticos em regiões periféricas serão os primeiros a ter cortes prolongados. Por último, serão os grandes consumidores, como as indústrias; que geram nosso glorioso “desenvolvimento” e são muitas delas financiadoras de campanhas.

Mas o que a Sabesp e o governo poderiam ter feito para evitar essa situação?

Muita coisa; cito três:

  1. Aumentar o sistema de captação, algo necessário porque a cidade teve crescimento populacional e econômico, precisando consumir mais água;
  2. Melhorar a manutenção do sistema para diminuir os vazamentos gigantescos nos canos;
  3. Tratar (de verdade, não superficialmente) água do esgoto e reaproveitar como acontece por exemplo em Singapura, onde toda água consumida é reinserida no sistema.

O aumento da captação não é algo a ser feito do dia para a noite; é necessário transpor rios, construir represas, estações de tratamento, e poços. Demanda concreto, discussões, investimentos, planejamento. Planejamento, aliás, parece faltar.

Alguns estabelecimentos e edifícios tem poços artesianos próprios; isso é bom?

Não me parece e pode vir a ser muito problemático. São três as questões.

  1. Existe uma chance gigantesca da água do lençol freático (mesmo que profundo), estar contaminada dentro da cidade. Quem garante que não se está regando o alecrim com água cheia de chumbo? Qualquer uso dessa água que não seja apenas para o vaso sanitário é perigoso.
  2. Toda água subterrânea está, de alguma forma, conectada, até mesmo em bacias hidrográficas diferentes. O slogan “não usamos água da Sabesp” é simplista. No fundo é a mesma água, que está sendo abstraída do lençol freático antes de sair na nascente. Bacias hidrográficas recebem pressões umas das outras dessas águas subterrâneas.
  3. Há uma transferência de uma responsabilidade pública para o cidadão. Quem está autorizando e controlando essa água? Quem garante que essa extração não é excessiva ou danosa para a saúde? Se cada um bombear sua própria água do poço sem plano, aí sim a água vai acabar rapidamente.

O uso do volume morto é aceitável?

Faço uma analogia: se vocês estiverem perdidos em uma selva, vocês preferirão tomar água de uma poça quase seca ou de um rio de corredeira? Só em caso de emergência optarão pela poça, provavelmente. O volume morto é uma água parada, que acumulou poluentes ao longo das décadas porque a captação da Sabesp (os canos que sugam a água) estão a cima desse volume, deixando a parte inferior estanque. Agora resolveram extrair essa água. Mas não está vindo junto toda a poluição decantada no fundo, incluindo poluentes de difícil detecção?

É possível garantir que a água do poço ou do volume morto é boa?

Infelizmente, preciso dizer que isso é muito difícil. Tentei fazer testes laboratoriais da água que consumo. Quis testar de verdade, não apenas exames básicos supostamente já feitos pela Sabesp. Queria análises de metais pesados e hormônios. Os laboratórios (alguns públicos) se recusaram a fazer, talvez por ano eleitoral. Consegui um lugar para verificar os metais pesados, mas a margem de erro era no limite dos valores máximos recomendados para consumo em padrões internacionais (como a União Européia). Portanto, mesmo obtendo resultados considerados OK, é difícil dizer que a água seja totalmente segura para beber porque apenas os limites máximos das regras internacionais seriam suficientes para tirar os marcadores do zero. Nenhum indicador de metais pesados apresentou problemas, mas não consegui achar sequer um lugar no Brasil que fizesse o teste para hormônios e medicamentos. Conclui que o resultado era satisfatório, porém ainda um tanto inconclusivo.

Podemos explorar águas subterrâneas livremente então?

Isso faltou explicar no meu primeiro texto. O ideal é que só seja retirado do lençol freático a mesma quantidade de água em que a região consegue naturalmente recarregar no subsolo. Ou seja, a água total que se infiltra no solo. A estimativa desse volume envolve um processo complicado de análise, mas que é praticado em muitos lugares do mundo.

O aquífero Guarani seria uma alternativa?

O que eu tentei no post, 10 Mitos e Curiosidades Sobre a Crise Hídrica,foi desmistificar inclusive a existência do aquífero Guarani, como é entendido hoje pelo senso comum. A permanência desse conceito antiquado de um único reservatório subterrâneo é até motivo de chacota de pesquisadores internacionais. Um aquífero Guarani não existe, o que temos são várias camadas de água em diferentes níveis. Os mapas atuais do aquífero mostram afloramentos mais superficiais (estes que estão no meio do Estado de São Paulo, por exemplo). Nada impede, porém, que camadas profundas, mais próximas da cidade, sejam extraídas. Defendo o uso de água subterrânea especialmente para situações emergenciais, tanto que a abstração não supere a recarga natural do sistema.

Então seria melhor ter uma empresa privada?

Cara… Você não entendeu nada do que eu falei. Primeiro porque a Sabesp já é, na prática, privada. Todas as decisões tomadas nos últimos anos não visam prestar um bom serviço (vejam o post, 10 Mitos e Curiosidades Sobre a Crise Hídrica), e sim entregar dividendos para os acionistas na Bolsa de Nova Iorque e São Paulo. Segundo, por ser um serviço tão fundamental, é necessário que seja parte de políticas públicas seríssimas de longo prazo. Não acredito que o atual Governo tenha quaisquer condições de criar essas políticas, como já não teve nas últimas décadas. Esse é um problema político, da gestão hoje.


Texto Original de Gabriel Kogan, em Questões sobre a crise hídrica

Gabriel Kogan é arquiteto e jornalista, formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP; desenvolveu mestrado em Gerenciamento Hídrico no UNESCO-IHE (Holanda), onde pesquisou as origens históricas das enchentes em São Paulo.

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